HISTÓRIA MEDICINAL DO ALOE VERA (BABOSA)



OS 6.000 ANOS DE HISTÓRIA MEDICINAL DO ALOE VERA
Planta medicinal, com propriedades benéficas reconhecidas há milênios, o áloe vera –utilizado, inclusive, pelos egípcios como elixir da longevidade –apresenta inúmeras funções que contribuem para a manutenção da saúde. Além de sua ação bactericida e anti-inflamatória, oferecida pela presença de bioflavonoides, conta com diversas vitaminas, minerais e aminoácidos essenciais disponíveis tanto em suas folhas quanto em seu característico parênquima gelatinoso. Porém, é o polissacarídeo acemannan–um potente imuno estimulador –um dos componentes mais pesquisados do áloe vera, devido à sua ação antiparasitária, antiviral, antibacteriana e antifúngica. Todas essas substâncias contribuem para seus múltiplos efeitos, com destaque para os antitumorais, antiglicêmico, imunológicos, entre outros. Mesmo diante de tantos benefícios, o áloe vera também possui ativos fenólicos que comprometem sua segurança toxicológica, quando não manipulado devidamente. Os avanços científicos e tecnológicos, no entanto, hoje possibilitam a elaboração de produtos totalmente seguros, capazes de auxiliar milhares de pessoas.
  
INTRODUÇÃO
Popularmente conhecido como babosa, o áloe vera é uma planta que concentra inúmeras propriedades medi-cinais. Sua família corresponde a mais de 400 espécies, somando mais de 200 diferentes substâncias biológica-mente ativas disponíveis tanto nas folhas quanto em seu característico gel.
No entanto, é a variedade áloe vera barbadensis–pertencente à mesma família da cebola, do alho e aspar-go –que gera um particular (e milenar) interesse medicinal. Na época dos faraós, por exemplo, o áloe vera era denominado pelos egípcios como a “planta imortal”.
Datados de 4200 a.C., escritos cuneiformes encontrados na Babilônia já descreviam os efeitos medicinais da planta. Os faraós, por sua vez, acrescentavam seu gel às bebidas com a crença de que a mistura prolongaria suas vidas.
Hipócrates, considerado o pai da Medicina, descrevia os benefícios gerados pela planta nos casos de úlceras e desordens gastrointestinais. Em seus estudos, Galeno também destacava as propriedades medicinais do áloe vera. Essas e outras citações constam no excelente livro do Dr. Hademar Bankhofer, publicado em 2013.

Antes de relatar as vantagens oferecidas pelo áloe vera é interessante ressaltar a importância das informações contidas neste artigo, uma vez que todos os produtos derivados da planta são isentos de patenteabilidade. Como não geram lucro à indústria farmacêutica, seus benefícios são pouco divulgados.
Porém, basta digitar o termo “áloe vera” no Google para encontrar aproximadamente 20 milhões de citações. Ao realizar a mesma busca no Google Acadêmico, que só inclui trabalhos publicados em revistas indexadas, é possível identificar 52.500 citações científicas. Isso mostra claramente o interesse tanto popular quanto científico pelas propriedades medicinais da planta.

MATERIAL E MÉTODOS
O presente estudo é uma revisão literária. Todo material pesquisado envolve não apenas as melhores fontes de consulta –artigos científicos e livros publicados sobre o tema –contendo referências com mais de 10 anos de publicação até as mais atuais. Trata-se, portanto, de uma abordagem evolutiva, que oferece um entendimento abrangente sobre o assunto em questão. Para atingir esse resultado, foram utilizados os termos ÁLOE VERA e MEDICINA ou MEDICINE, contabilizando um total de 48 artigos para a produção de todo conteúdo.

DESENVOLVIMENTO
Entre seus inúmeros componentes, o áloe vera contém bioflavonoides (ligninas, saponáceas, taninos, an-traquinonas), com ação bactericida e anti-inflamatória. Além disso, possui uma substância denominada acemannan–um potente modulador do sistema imune, tendo ação antiparasitária, antiviral, antibacteriana e antifúngica –tema que será abordado adiante.

Vitaminas, como A, B1, B2, B3, B6, B9, B12, C, E, minerais –Cr, Fe, K, Cu, Mg, Mn, Zn –e aminoácidos essenciais, a exemplo de leucina, valina, isoleucina, lisi-na, fenilalanina, treonina, metionina e triptofano, são encontrados no áloe vera, que também é composto por aminoácidos não essenciais e várias enzimas, segundo dados de uma revisão sistemática publicada por Radha e Laxmipriya2, em 2015.
O artigo ainda revela que a administração apropriada do áloe vera barbadensis apresenta, entre seus principais efeitos medicinais desejáveis, propriedades cicatrizantes, limpeza e regularização intestinal, antioxidante, anti-inflamatória, antiartrítica, antireumatóide, antidiabética, normalização do colesterol, anticonstipação e terapia de outras desordens gastrointestinais, promoção de crescimento ósseo e dental, estimulação do sistema imune e ações antibióticas, fungicidas, antivirais e inibição do receptor estrogênico alfa fazendo seu uso útil no tratamento e prevenção de cânceres estrogênio-dependentes.

Essas propriedades, por sinal, são resultado de inú-meros estudos e análises promovidos e documentados desde o Egito Antigo (aproximadamente em 4.000 a.C.), pela cultura Rigveda da Índia (1.750-500 a.C.), pela dinastia Tang da China (618–907) e, curiosamente, também citadas no Velho e Novo Testamento da Bíblia. Trata-se, portanto, de uma das mais antigas plantas medicinais. Está presente na Farmacopeia de Londres (London Pharmacopoeia) desde 1.650, e em pelo menos 21 pre-parações oficiais .

Para entender o que torna o áloe vera tão especial é preciso conhecer seus principais componentes. Para isso, é necessário, primeiramente, dividir sua folha em duas partes, sendo a externa constituída pela casca e sua camada logo abaixo, denominada látex, e a interna conhecida como parênquima e caracterizada por um gel trans-lúcido.
O parênquima gelatinoso encontrado no interior da folha, considerado comestível, é formado, principalmente, por água (98,5%). Sua base sólida conta com polissacarídeos funcionais de alto peso molecular (55%), outros carboidratos (17%), minerais (16%), glicoproteínas e proteínas (7%), lipídeos (4%) e compostos fenólicos (1%).

Também contém várias vitaminas, incluindo as de ação antioxidante (A, C e E), B1 (tiamina), B2 (ribofla-vina), B3 (niacina), colina, ácido fólico  e aminoácidos, especialmente arginina, asparagina, serina, ácido aspártico e ácido glutâmico. Porém, é o acemannan, um polissacarídeo acetilado reconhecido como principal constituinte bioativo do áloe vera, o componente de maior aspecto funcional e medicinal.

Molécula complexa, de cadeia longa e com grande peso molecular, o acemannantem diversas ramificações acetiladas de carboidratos funcionais, principalmente com manose 5,6,7. Segundo Thart et al.8, o polissacarídeo é composto por manose (83,7%-92,1%), glucomannan (3,2%-3,9%), galactose (3,8%-3,9%) e arabinose (0,9%-3,6%).
Outros autores apresentam diferentes respostas para essa questão, apoiados em condições biológicas, sazonalidade, forma de plantio, técnicas de manejo, período da colheita e processos tecnológicos de obtenção dos pro-dutos finais . Outros polissacarídeos funcionais são re-portados em menor quantidade, como mannans, gluco-mannans, galactoglucomannans9, pectinas e galactans.

Na parte mais externa, sob a casca, há uma alta concentração de compostos fenólicos (ou derivados hidroxiantracênicos), que variam entre 15% a 40% de sua composição, sendo essa uma distinta característica do áloe vera natural não processado (in natura).
Conhecidas como antronas e seus glicosídeos (aloína a e b ou também denominados de barbaloin), antraquinonas (aloe-emodim) e aloesin cromonas, essas substâncias são responsáveis pela defesa natural da planta, expelindo, logo após o corte da folha, um líquido de cor amarelo ou amarelo-esverdeado.

São elas que conferem o sabor amargo e o efeito laxativo do áloe vera. Sua ingestão excessiva e por longo tempo pode causar espasmos e dores abdominais, hepatites, distúrbios eletrolíticos, acidose metabólica, albuminúria e hematúria.
Esses efeitos indesejáveis são atribuídos exclusiva-mente aos compostos fenólicos e, principalmente, às aloínas A e B, apresentassem maior quantidade. São elas, portanto, as substâncias consideradas mais importantes, recebendo total atenção sob os aspectos dos controles analíticos e de segurança toxicológica.

Estudos toxicológicos recentes destacam a preocupação existente em torno das aloínas, potencialmente cancerígenas. Devido a esse fato, criou-se o falso mito de que o áloe vera é completamente tóxico. No entanto, deixa-se de retratar que tais análises foram realizadas com extratos obtidos da planta inteira (casca e gel), incluindo altas concentrações dos compostos fenólicos indesejáveis presentes na parte externa.

Está claro, portanto, cientificamente que o eventual potencial toxicológico do áloe vera depende da parte da planta utilizada e/ou do método de extração e elaboração do produto final. Processos tecnológicos industriais modernos permitem a elaboração de produtos seguros, sem a presença em quantidade comprometedora das aloínas. Esclarecido este assunto, é possível apresentar algumas funcionalidades dos componentes do áloe vera, validadas em referências científicas.

Efeito na cura de feridas e queimaduras
Muitos estudos mostram que o tratamento com o extrato do áloe vera oferece rápida cicatrização de feridas, com significativa diminuição da área afetada e aumento da síntese de colágeno. Essa propriedade é atribuída à manose-fosfato presente em seu gel.
Os polissacarídeos funcionais do áloe vera promovem a proliferação de fibroblastos e a produção de ácido hialurônico e hidroxiprolina, que têm um importante papel no remodelamento da matriz extracelular durante a cicatrização das feridas.
Estudos clínicos realizados em humanos comprovaram a eficácia do áloe vera no tratamento de queimaduras superficiais e profundas (2º grau). Em comparação ao creme de sulfadiazina de prata (1%), o áloe vera demonstrou uma cicatrização mais rápida nos pacientes tratados.
Estudos em ratos, por sua vez, mostraram que os polissacarídeos isolados da planta induzem a formação da matriz melatopeptidase (MMP-3) e a expressão genética da proteína TIMP2 (inibidor da melatopeptidase) durante a reparação das feridas da pele. Seu efeito também foi eficaz na cicatrização da úlcera gástrica induzida em ratos.
Efeito antioxidante e anti-inflamatório
O áloe vera apresenta alto potencial antioxidante, superior aos antioxidantes clássicos, como BHT e α-tocoferol. Atua, inclusive, na inibição da hiperinflação que ocorre na septicemia, reduzindo os processos inflamatórios, injúria de órgãos e a morte do indivíduo.
Em uma pesquisa realizada como esse propósito, ratos com Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica (septicemia induzida) receberam uma dose intravenosa, na cavidade peritoneal, de 50mg/kg de áloe vera liofilizado, dissolvido em solução salina (fosfato-tamponada pH 7,4). O resultado revelou um nível significativo de proteção com inibição da inflamação e com taxa de sobrevivência de 95%, sugerindo que o áloe vera pode ser usado como um potente e eficaz agente anticéptico e no tratamento clínico de pacientes com septicemia.
A planta também induz o aumento da superoxide dismutase–enzima necessária para a defesa efetiva contra radicais livres. Portanto, inibe os processos oxida-tivos (estresse oxidativo), amenizando os efeitos da “corrosão biológica” provocada pelos radicais livres, contribuindo para o antienvelhecimento.
Extratos de áloe vera têm atividade hematopoiética e perfil anti-inflamatório, com ação benéfica na inibição dos processos inflamatórios das doenças intestinais. Em estudos realizados em ratos e animais modelos veri-ficou-se a cicatrização da úlcera gástrica e a redução do tamanho dos pólipos intestinais, respectivamente.
De acordo com a recente revisão realizada por Radha e Laxmipriva, o aloe vera pode ser considerado um excelente anti-inflamatório, já que inibe diretamente a via metabólica da ciclo oxigenase e reduz a produção da prostaglandina E2, que apresentam um papel importante nos processos inflamatórios.
Ação imunológica e efeito antitumor
Evidências indicam que o polissacarídeo acemannan age como imunoestimulador ou imunomodulador, principalmente na ativação de monócitos e macrófagos e no aumento da liberação de citosinas, incluindo interleucina, interferon e o fator de necrose tumoral, observados em ensaios in vitroe in vivo.
O acemannanmostrou-se um excelente imunomo-dulador com completa cura ou redução da carga tumoral de sarcomas em ratos, e proteção contra o câncer de pulmão, com evidências científicas que sugerem a segurança do áloe vera, com raras reações alérgicas, sem documentar reações adversas com medicamentos.
Yu et al, por sua vez, constataram que o tratamento de úlcera oral recorrente em ratos e os indivíduos trata-dos com áloe vera resultou no aumento das imuno globulinas IgG, IgA e IgM. Além de documentarem a ação anti-inflamatória da planta, Radha e Laxmipriva também registraram, em sua recente revisão, os efeitos imuno modulatórios do áloe vera de forma incontestável.

Efeito hipoglicêmico (antidiabético)
Nos últimos 30 anos, trabalhos têm mostrado que produtos feitos à base de áloe vera apresentam efeitos terapêuticos benéficos em indivíduos diabéticos, principalmente para os casos de diabetes tipo II.
Esse efeito hipoglicêmico foi primeiramente descrito por Agarwal, que avaliou a administração de áloe vera em 3.167 pacientes diabéticos, duas vezes ao dia, durante cinco anos. Sua conclusão foi que a glicemia e o colesterol total diminuíram acentuadamente.
Desde então, o efeito antiglicêmico do áloe vera tem sido comprovado em muitas pesquisas realizadas com pacientes diabéticos e animais de laboratório. Em ensaios aleatórios controlados, por exemplo, o áloe vera reduziu o peso corporal, a massa gorda corpórea e a resistência à insulina em pacientes obesos pré-diabéticos e em diabéticos não tratados.
Dados de testes clínicos suportam sua efetividade na diminuição do LDL, aumento do HDL, na redução da glicemia em pessoas diabéticas e no tratamento do herpes genital e da psoríase. Essas pesquisas confirmam que o áloe vera pode ser uma alternativa eficaz no tratamento da doença, ajudando a evitar complicações associadas, como a retinopatia, nefropatia, neuropatia e aterosclerose.

Aplicações na odontologia
Em diversos países o áloe vera já é utilizado em produtos de higiene bucal e outras aplicações odontológicas. Vários trabalhos científicos documentam que ex-tratos do seu gel estimulam a proliferação de muitos tipos de células.
O acemannan, por sua vez,tem papel significativo no processo de cicatrização gengival em tratamentos por via oral, com a indução da proliferação de fibroblastos, estimulação de fatores de crescimento da queratina (KGF-1), fator de crescimento vascular endotelial (VEGF) e na síntese do colágeno tipo I.
Também contribui para aumento da atividade da fos-fatase alcalina em células dos ligamentos periodontais e na formação e mineralização das células do estroma ósseo, sugerindo seu eventual uso como um biomaterial natural para a regeneração óssea.

Precaução
Independentemente da situação, é recomendado que produtos que contenham aloe vera não sejam ingeridos por gestantes, lactantes e indivíduos que sofrem de dores abdominais, apendicite e obstrução intestinal.
CONCLUSÃO
O uso do aloe vera é milenar e seus benefícios funcionais são numerosos. Apesar disso, existem precauções sobre sua segurança toxicológica devido à presença de compostos fenólicos na casca da planta. Contudo, atualmente a ciência e a tecnologia permitem elaborar produtos seguros, capazes de gerar benefícios com tratamentos alternativos e mais econômicos à comunidade em geral.
Fonte: www.lairribeiro.com.br
Gaspar Moura dos Santos